Maternidade compulsória para mulheres brancas e negras: o descumprimento da Meta 5.6 da Agenda 2030 no Brasil

Autores

Palavras-chave:

Agenda 2030, Brasil, Maternidade compulsória, Mulheres brancas, Mulheres negras

Resumo

O presente artigo analisa as diferentes formas pelas quais a maternidade compulsória é imposta a mulheres brancas e negras no Brasil, examinando como essas imposições produzem desigualdades de gênero e raça que comprometem o cumprimento da Meta 5.6 da Agenda 2030 da ONU, voltada à garantia do acesso universal à saúde sexual e reprodutiva e à plena autonomia das mulheres sobre seus corpos. A pesquisa adota o método dedutivo, qualitativo e interseccional, fundamentado na análise normativa, bibliográfica e crítica de dados secundários, buscando compreender as múltiplas camadas de opressão que sustentam a naturalização da maternidade como destino social feminino. Para tanto, investiga-se como o discurso da maternidade compulsória se manifesta de modo distinto entre mulheres brancas e negras: às primeiras, a imposição opera como expectativa moral e ideal de realização; às segundas, como instrumento de controle, culpabilização e exclusão, reproduzindo estigmas coloniais e racistas. A partir da análise crítica de marcos normativos, políticas públicas e literatura especializada, evidencia-se que as barreiras estruturais ao exercício da autonomia corporal e reprodutiva revelam o déficit de implementação da Agenda 2030 no Brasil, especialmente no que tange às metas de igualdade de gênero, saúde e direitos reprodutivos. Conclui-se que o enfrentamento da maternidade compulsória demanda a efetiva transversalização de gênero e raça nas políticas estatais, reconhecendo as especificidades das experiências femininas e assegurando condições reais para o exercício da liberdade reprodutiva e da cidadania plena.

Biografia do Autor

Maria Augusta Perez Strelow, Universidade de Santa Cruz do Sul - UNISC

Mestranda em Direito pelo Programa de Pós-Graduação em Direito da Universidade de Santa Cruz do Sul – UNISC, com bolsa PROSUC/CAPES, modalidade II. Bacharela em Direito pela Universidade de Santa Cruz do Sul – UNISC. Integrante do Grupo de Pesquisa em Direito, Cidadania e Políticas Públicas de Inclusão Social (UNISC).

Marli Marlene Moraes da Costa, Universidade de Santa Cruz do Sul - UNISC

Doutora em Direito pela Universidade Federal de Santa Catarina – UFSC, com pós-doutoramento em Direito pela Universidade de Burgos – Espanha, com bolsa CAPES. Professora da Graduação, Mestrado e Doutorado em Direito da Universidade de Santa Cruz do Sul - UNISC.  Coordenadora do Grupo de Estudos em Direito, Cidadania e Políticas Públicas de Inclusão Social. Membra do Conselho do Conselho Consultivo da Rede de Pesquisa em Direitos Humanos e Políticas Públicas. Membra do Núcleo de Estudos Jurídicos da Criança e do Adolescente – NEJUSCA/UFSC. 

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Publicado

2026-01-08

Como Citar

PEREZ STRELOW, Maria Augusta; MORAES DA COSTA, Marli Marlene. Maternidade compulsória para mulheres brancas e negras: o descumprimento da Meta 5.6 da Agenda 2030 no Brasil. Revista Pensamento Jurídico, São Paulo, Brasil, v. 19, n. 3, 2026. Disponível em: https://ojs.unialfa.com.br/index.php/pensamentojuridico/article/view/1138. Acesso em: 23 jan. 2026.

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