Invisibilidade e reconhecimento: o tratamento judicial da homofobia e da intolerância sexual no Tribunal de Justiça de São Paulo
Palavras-chave:
ADO 26, Homofobia, injustiça epistemica, TJSP, violência institucionalResumo
O artigo analisa o tratamento judicial da homofobia e da intolerância sexual no Tribunal de Justiça do Estado de São Paulo (TJSP), com base na Ação Direta de Inconstitucionalidade por Omissão n.º 26/DF, no Mandado de Injunção n.º 4.733/DF e na Lei n.º 14.532/2023. Adota-se abordagem qualitativa, empírica e exploratório-descritiva, com análise de conteúdo de 26 acórdãos proferidos entre janeiro de 2020 e julho de 2025. As decisões foram localizadas no repositório de jurisprudência do TJSP mediante o caminho “Jurisprudência → SAJ → Jurisprudência → Assunto: ‘Intolerância por orientação’”, e, em seguida, com os filtros complementares “Penal → Preconceituosa → Orientação Sexual → Identidade de Gênero”, acrescidos das palavras-chave “homofobia” e “ADO 26”. Após exclusão de duplicidades e verificação de integridade documental, foram analisadas decisões das 1ª, 2ª, 4ª, 5ª, 6ª, 10ª, 11ª e 16ª Câmaras Criminais. Os resultados apontam que a hipótese inicial — de presença estrutural de violência institucional — não se confirmou integralmente. O TJSP demonstra uniformidade crescente e aplicação sistemática da ADO 26/DF e da Lei 14.532/2023, evidenciando avanço interpretativo e sensibilidade constitucional no enfrentamento da homofobia. Contudo, persistem formas sutis de invisibilidade e injustiça epistêmica, observadas na ausência de padronização dos registros e no apagamento simbólico das identidades das vítimas. Conclui-se que o TJSP vive uma transição institucional, marcada por maior coerência hermenêutica e consolidação de uma jurisprudência inclusiva e protetiva às pessoas LGBTQIA+.
Referências
ANTRA – Associação Nacional de Travestis e Transexuais. Dossiê Assassinatos e Violências contra Travestis e Transexuais Brasileiras em 2025. Brasília: ANTRA, 2025. p. 8–12. Disponível em: https://antrabrasil.org/. Acesso em: 22 out. 2025.
ARENDT, Hannah. Sobre a violência. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1970.
BARROSO, Luís Roberto. O novo direito constitucional brasileiro: contribuições para a construção teórica e prática da jurisdição constitucional no Brasil. 9. ed. São Paulo: Saraiva, 2017.
BARDIN, Laurence. Análise de conteúdo. Tradução de Luís Antero Reto e Augusto Pinheiro. São Paulo: Edições 70, 2011.
BATISTA, Vera Malaguti. Introdução crítica à criminologia brasileira. 3. ed. Rio de Janeiro: Revan, 2018.
BENTO, Berenice. Transviad@s: gênero, sexualidade e direitos humanos. Salvador: EDUFBA, 2017.
BOBBIO, Norberto. O futuro da democracia. São Paulo: Paz e Terra, 1995.
BOURDIEU, Pierre. O poder simbólico. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 1998.
BRASIL. Lei nº 13.869, de 5 de setembro de 2019. Dispõe sobre os crimes de abuso de autoridade; altera a Lei nº 7.960, de 21 de dezembro de 1989, a Lei nº 9.296, de 24 de julho de 1996, a Lei nº 8.069, de 13 de julho de 1990, e a Lei nº 8.906, de 4 de julho de 1994; e revoga a Lei nº 4.898, de 9 de dezembro de 1965, e dispositivos do Decreto-Lei nº 2.848, de 7 de dezembro de 1940 (Código Penal). Brasília, DF: Presidência da República, 5 set. 2019. Disponível em: https://www2.camara.leg.br/legin/fed/lei/2019/lei-13869-5-setembro-2019-789094-norma-pl.html. Acesso em: 10 out. de 2025.
BRASIL. Supremo Tribunal Federal. Ação Direta de Inconstitucionalidade por Omissão n.º 26/DF e Mandado de Injunção n.º 4.733/DF. Relator: Ministro Celso de Mello. Julgamento: 13 jun. 2019. Brasília, DF: DJe, 26 jun. 2019. Disponível em: https://redir.stf.jus.br/paginadorpub/paginador.jsp?docTP=TP&docID=754019240. Acesso em: 20 set. de 2025.
BUTLER, Judith. Undoing gender. New York: Routledge, 2004.
BUTLER, Judith. A força da não violência: um vínculo ético-político. São Paulo: Boitempo, 2022.
BUTLER, Judith. Quadros de guerra: quando a vida é passível de luto? 2ª ed. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2016.
CNMP – CONSELHO NACIONAL DO MINISTÉRIO PÚBLICO. Plano Nacional de Enfrentamento à Violência Institucional. Brasília: CNMP, 2022. Disponível em: https://www.cnmp.mp.br. Acesso em: 20 set. 2025.
CONNELL, Raewyn. Gender: in world perspective. 3. ed. Cambridge: Polity Press, 2012.
CONSELHO NACIONAL DE JUSTIÇA (Brasil); PROGRAMA DAS NAÇÕES UNIDAS PARA O DESENVOLVIMENTO (PNUD). Discriminação e violência contra a população LGBTQIA+: relatório da pesquisa. Brasília: CNJ, 2022.
Disponível em: https://bibliotecadigital.cnj.jus.br/jspui/handle/123456789/708. Acesso em: 04 nov. 2025.
CRENSHAW, Kimberlé. Documento para o encontro de especialistas em aspectos da discriminação racial relativos ao gênero. Revista Estudos Feministas, Florianópolis, v. 10, n. 1, p. 171-188, 2002.
ESCOLA NACIONAL DE FORMAÇÃO E APERFEIÇOAMENTO DE MAGISTRADOS (ENFAM). Igualdade de gênero: julgar com perspectiva de gênero. Brasília: ENFAM, 2022. Disponível em: https://www.enfam.jus.br/wp-content/uploads/2022/06/igualdade_genero_julgar_perspectiva.pdf. Acesso em: 04 nov. 2025.
FACHIN, Luiz Edson. Direitos fundamentais e sua dimensão civil-constitucional. 3. ed. São Paulo: Revista dos Tribunais, 2020.
FOUCAULT, Michel. Vigiar e punir: nascimento da prisão. 22. ed. Petrópolis: Vozes, 1979.
FRICKER, Miranda. Injusticia epistémica : el poder y la ética del conocimiento. Traducción de Ricardo García Pérez. Barcelona : Herder Editorial, 2017
GALTUNG, Johan. Cultural violence. Journal of Peace Research, v. 27, n. 3, p. 291-305, 1990.
INSTITUTO SOU DA PAZ. Relatório Violência e LGBTfobia: panorama das decisões judiciais 2021-2023. São Paulo: Instituto Sou da Paz, 2023. Disponível em: https://soudapaz.org. Acesso em: 25 set. 2025.
MARINONI, Luiz Guilherme. Precedentes obrigatórios. 4. ed. São Paulo: Revista dos Tribunais, 2016.
MBEMBE, Achille. Necropolítica. São Paulo: n-1 Edições, 2017.
OEA – ORGANIZAÇÃO DOS ESTADOS AMERICANOS. Convenção Interamericana contra Toda Forma de Discriminação e Intolerância. Adotada em La Antigua, Guatemala, 2013. Disponível em: https://www.oas.org. Acesso em: 20 set. 2025.
ONU – ORGANIZAÇÃO DAS NAÇÕES UNIDAS. Princípios de Yogyakarta: princípios sobre a aplicação da legislação internacional de direitos humanos em relação à orientação sexual e identidade de gênero. Yogyakarta, 2007. Disponível em: https://yogyakartaprinciples.org. Acesso em: 20 set. 2025.
PRECIADO, Paul B. Um apartamento em Urano: crônicas da travessia. São Paulo: Companhia das Letras, 2020.
SANTOS, Boaventura de Sousa. O fim do império cognitivo: a afirmação das epistemologias do Sul. Belo Horizonte: Autêntica, 2019.
Downloads
Publicado
Como Citar
Edição
Seção
Licença
Copyright (c) 2026 Renata Franciele Tavante, Carla Bertoncini, Luiz Fernando Kazmierczak

Este trabalho está licenciado sob uma licença Creative Commons Attribution-NonCommercial-ShareAlike 4.0 International License.
A publicação na Revista Pensamento Jurídico implica a aceitação das condições da Cessão de Direitos Autorais de Colaboração Autoral Inédita, e Termo de Responsabilidade, que serão encaminhados ao(s) autor(es) com o aceite.