De “rainha do lar” a “mulher guerreira”: a nova “mulher” do discurso jurídico da “flexibilização” e a uberização do trabalho das corretoras de imóveis

Autores

Palavras-chave:

flexibilização, uberização, discurso jurídico, mulher guerreira, neoliberalismo

Resumo

O presente artigo analisa como o discurso jurídico sobre o trabalho feminino no Brasil – especialmente em sua vertente contemporânea atrelado à flexibilização e desregulação – vem constituindo uma nova forma de subjetividade de gênero, a da chamada “mulher guerreira”. Em continuidade à pesquisa anterior sobre o estereótipo da “rainha do lar” na era Vargas, investiga-se de que modo o Direito, como tecnologia de gênero, produz sujeitos femininos a partir de enunciados normativos e práticas sociais que conciliam inclusão econômica e manutenção de papéis tradicionais de cuidado. O estudo parte da hipótese de que, sob o discurso neoliberal da autonomia e da diversidade, o Direito passou a incorporar uma racionalidade que, longe de eliminar a desigualdade de gênero, transforma a emancipação feminina em instrumento de autogestão da precariedade. Metodologicamente, adota-se a perspetiva foucaultiana e o referencial de Carol Smart sobre o Direito como tecnologia de gênero, articulando-a às análises de Ludmila Abílio, quanto à uberização, e de Nancy Fraser, sobre a captura neoliberal do feminismo. O caso empírico das corretoras associadas ao aplicativo QuintoAndar é examinado como exemplo paradigmático da reconfiguração do trabalho feminino em contexto de plataformas, em que a promessa de flexibilidade reproduz a lógica da autossubordinação e da maternidade compulsória em novas bases discursivas.

Biografia do Autor

Murilo Riccioppo Magacho Filho, Universidade Presbiteriana Mackenzie

Mestre em Direito Político e Econômico pela Universidade Presbiteriana Mackenzie, Advogado em São Paulo/SP e atua como Coordenador de Pesquisa e Professor dos cursos livres do Instituto Berliner, na área de Memória e Direitos Humanos.

Patrícia Bertolin, Universidade Presbiteriana Mackenzie

Doutora em Direito do Trabalho pela Universidade de São Paulo (USP), com Estágio Pós-Doutoral na Superintendência de Educação e Pesquisa da Fundação Carlos Chagas. Mestre em Direito do Trabalho pela USP. Professora da Universidade Presbiteriana Mackenzie, onde integra o corpo docente permanente do Programa de Pós-Graduação em Direito Político e Econômico e lidera o grupo de pesquisa (CNPq) “Mulher, Sociedade e Direitos Humanos”. Sócia da Consultoria EquidadeLab.

 

Referências

ABÍLIO, Ludmila Costhek. Sem maquiagem: o trabalho de um milhão de revendedoras de cosméticos. São Paulo: Boitempo, 2014.

ABÍLIO, Ludmila Costhek. Uberização: Do empreendedorismo para o autogerenciamento subordinado. In: Psicoperspectivas, Valparaíso, v. 18, n. 3, p. 41-51, nov. 2019. Disponível em < https://www.scielo.cl/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0718-69242019000300041 >. Acesso em: 26/10/2025.

ABÍLIO, Ludmila Costhek. A subsunção real da viração. PassaPalavra, 2017. Disponível em < https://passapalavra.info/2017/02/110685/ >. Acesso em: 26/10/2025.

ABÍLIO, Ludmila. Entrevista com Ludmila Abílio: o trabalho intermitente formaliza o trabalhador uberizado. In: Esquerda Diário, 16 abr. 2023. Disponível em < https://www.esquerdadiario.com.br/Entrevista-com-Ludmila-Abilio-O-trabalho-intermitente-formaliza-o-trabalhador-uberizado > Acesso em: 9/11/2025.

ANTUNES, Ricardo. "Uberização" do trabalho: caminhamos para a servidão, e isso ainda será um privilégio. [Entrevista concedida ao] Congresso em Foco. Instituto Humanitas Unisinos. 03 ago. 2019. Disponível em: <http://www.ihu.unisinos.br/78-noticias/591102-uberizacao-nos-leva-para-a-servidao-diz-pesquisador>. Acesso em: 02 abr. 2021.

BERTOLIN, Patrícia Tuma Martins; MAGACHO FILHO, Murilo. O processo de regulamentação do trabalho feminino no Brasil à luz da teoria de Carol Smart: o Direito como tecnologia de gênero. Opinião Jurídica, Fortaleza, v. 14, n. 19, p. 187-210, jan./jun. 2023. Disponível em < https://periodicos.unichristus.edu.br/opiniaojuridica/article/view/4350 > Acesso em: 9/11/2025.

DARDOT, Pierre; LAVAL, Christian. A nova razão do mundo: ensaio sobre a sociedade neoliberal. São Paulo: Boitempo, 2016.

DAMASCENA, Breno. Por que mais mulheres estão se tornando corretoras de imóveis? O Estado de S. Paulo, São Paulo, 22 set. 2023. Disponível em < https://imoveis.estadao.com.br/compra/por-que-mais-mulheres-estao-se-tornando-corretoras-de-imoveis/ >. Acesso em: 10/11/2025.

FEIJÓ, Janaína. Mães solo no mercado de trabalho crescem 1,7 milhão em dez anos. Blog do IBRE / Fundação Getulio Vargas, São Paulo, 18 maio 2023. Disponível em < https://portal.fgv.br/artigos/maes-solo-mercado-trabalho-crescem-17-milhao-dez-anos >. Acesso em: 07/11/2025.

FONSECA, João José da. Natureza jurídica da prestação de serviços pelos motoristas de aplicativo. Leme: Mizuno, 2024.

FOUCAULT, Michel. O nascimento da biopolítica: curso no Collège de France (1978-1979). São Paulo: Martins Fontes, 2008.

FRASER, Nancy. O feminismo, o capitalismo e a astúcia da história. Mediações – Revista de Ciências Sociais, Londrina, v. 14, n. 2, p. 11–33, 2009. DOI: 10.5433/2176-6665.2009v14n2p11. Disponível em < https://ojs.uel.br/revistas/uel/index.php/mediacoes/article/view/4505. Acesso em: 10/11/2025 >

HAN, Byung-Chul. Sociedade do cansaço. Petrópolis, RJ: Vozes, 2017.

HAN, Byung-Chul. Psicopolítica: o neoliberalismo e as novas técnicas de poder. Belo Horizonte: Âyiné, 2018.

IFOOD. Termos de uso do App – iFood Portal do Entregador. Osasco: iFood, 2020. Disponível em < https://entregador.ifood.com.br/wp-content/uploads/2023/02/Termo-de-uso.pdf >. Acesso em: 26 out. 2025.

KALIL, Renan Bernardi. A regulação do trabalho via plataformas digitais. São Paulo: Blucher, 2020.

KAMADA, Fabiana Larissa. Trabalho da mulher: legislação protetiva ou discriminatória? In: SIQUEIRA NETO, José Francisco; BERTOLIN, Patrícia Tuma Martins (orgs.). Direito do Trabalho no Brasil. v. 1: 1930-1946. São Paulo: Atlas, 2014.

MARQUES, Cláudia Lima. Contratos no Código de Defesa do Consumidor: o novo regime das relações contratuais. São Paulo: Revista dos Tribunais, 1995.

PAULANI, Leda. Prefácio. In: ABÍLIO, Ludmila Costhek. Sem maquiagem: o trabalho de um milhão de revendedoras de cosméticos. São Paulo: Boitempo, 2014.

SMART, Carol Christine. The Woman of Legal Discourse. In: Social & Legal Studies, Vol. 1, 1992, p. 29-44.

SMART, Carol Christine. A mulher do discurso jurídico. In: Revista Direito e Práxis, vol. 11, núm. 2, 2020. p. 1418-1439,

SMART, Carol Christine. La teoría feminista y el discurso jurídico. In: LARRAURI, Elena (comp.). Mujeres, Derecho penal y criminología. Madri: Siglo Veintiuno, 1994.

TERMO DE USO – QUINTOANDAR. Termos e condições de uso das plataformas e serviços prestados. Disponível em < https://www.quintoandar.com.br/termos > Acesso em: 10/11/2025.

SUPREMO TRIBUNAL FEDERAL. RECURSO EXTRAORDINÁRIO COM AGRAVO 1.121.633. Rel. Min. Gilmar Mendes. Julg. em 2 jun. 2022.

Downloads

Publicado

2026-01-08

Como Citar

MAGACHO FILHO, Murilo; BERTOLIN, Patrícia. De “rainha do lar” a “mulher guerreira”: a nova “mulher” do discurso jurídico da “flexibilização” e a uberização do trabalho das corretoras de imóveis. Revista Pensamento Jurídico, São Paulo, Brasil, v. 19, n. 3, 2026. Disponível em: https://ojs.unialfa.com.br/index.php/pensamentojuridico/article/view/1136. Acesso em: 23 jan. 2026.